Abadia de Sant’Urbano di Domo
INTERIOR O edifício tem três naves; as coberturas apresentam várias descontinuidades construtivas; as abóbadas do primeiro e do segundo tramo são de berço. As mísulas dos primeiros pilares, que sustentam as arcadas de divisão entre a nave central e as laterais, apresentam restos de decorações: no capitel do primeiro pilar a norte, voltado para a nave lateral setentrional, surgem dois quadrúpedes, talvez veados que se alimentam de um arbusto (ver foto capitel com veados); por cima deles correm um motivo decorativo e uma moldura de fitas. No mesmo pilar, a mísula da face voltada para sul apresenta, por sua vez, um curioso motivo decorativo (ver foto capitel com guerreiros) em que se intuem três figuras humanas: a primeira a partir da direita é uma personagem armada, colocada de costas para a figura central, representada por um cavaleiro (parcialmente ilegível por causa da cabeça picada a escopro), de lança em riste e voltado para um terceiro guerreiro, revestido de armadura, que o enfrenta erguendo um escudo. A mísula terminal do segundo pilar meridional é decorada com uma cena de caça: um hominídeo aponta o arco a um quadrúpede; completam a cena uma estrela e um triquetra, símbolo da Trindade (ver foto capitel com triquetra), motivo este último presente também noutros dois capitéis (um na igreja e um na sala do presbitério sobrelevado). Outros dois capitéis, situados nos pilares que separam o espaço do presbitério da igreja inferior na nave central, têm gravados: o meridional, dois cães (?) que rodeiam uma presa e de novo o triquetra; o setentrional, mais uma vez dois cães (?) em torno de um cavaleiro em ação de golpear. Merecem particular atenção os capitéis esculpidos com cenas de caça: se já são raros, para esta época e para este território, os ornatos dedicados a figuras humanas relativas a cenas cristológicas ou hagiográficas, ainda mais singulares resultam estes capitéis, em que a figura humana está inserida num contexto não religioso, mas inteiramente profano. Na nave lateral meridional, duas semicolunas assinalam o fim do primeiro tramo; na nave lateral setentrional, pelo contrário, os suportes são constituídos por dois pilares. A cobertura das naves laterais é realizada com abóbadas de aresta de feitura aproximativa. No fim do segundo tramo das naves laterais, um muro obstrui o acesso sobrelevado ao presbitério, enquanto uma estrutura que lembra a base de uma iconóstase ocupa todo o espaço da nave central: esta construção deverá remontar a uma época posterior à edificação da igreja. No muro, no alto, abrem-se duas grandes janelas ogivais; por baixo da meridional, o aparelho apresenta uma decoração em dente de serra que encima uma moldura de arquinhos ogivais sobrepostos, com vestígios de pintura amarela; por baixo destas gregas abre-se a porta de acesso ao presbitério (sete degraus acima do pavimento da nave); por baixo da grande janela setentrional foi construído um prolongamento ao longo da nave (que forma um breve corredor para o acesso à cripta), com a provável função de púlpito. CRIPTA Não visitável e em fase de reabilitação no momento da visita. Vê-se a custo o espaço correspondente à nave central, ao passo que a presença dos laterais só se pode adivinhar. A cripta é composta por três naves divididas por oito colunas, aparentemente iguais, com capitéis desprovidos de decoração. PRESBITÉRIO Muito bela a abside, onde são retomadas as decorações do exterior. Como na igreja de Santa Maria a Pié Chienti, a abside central é decorada com arquinhos cegos e lesenas (dois arquinhos entre cada par de lesenas) e com três janelas monóforas. Os semipilares que sustentam o arco absidal apresentam capitéis decorados com motivos florais e geométricos. Os dois tramos do presbitério (nave central) têm cobertura de aresta ligeiramente ogival. A nave central recebe luz de quatro monóforas, uma das quais tinha sem dúvida um colunelo central, criando uma espécie de bífora. Havia ainda na monófora outros dois colunelos laterais, evidentemente retirados, visto que permaneceram no lugar apenas os pequenos capitéis decorados e uma pequena cabeça humana voltada para o presbitério. Os dois capitéis que sustentam as abóbadas divisórias entre a nave central e as laterais são de requintada feitura. O da direita é esculpido com motivos geométricos e florais; no setentrional, dois leões afrontados parecem alimentar-se de uma planta. O capitel de suporte no remate da abside norte apresenta decorações florais semelhantes a outras da igreja, mas é completado por um peixe. Em frente, outro capitel esculpido com a forma de uma serpente enrolada em nó. Outros dois capitéis dos pilares compósitos da nave central apresentam motivos decorativos: o setentrional, cinco pequenas arcadas sobre colunelos com uma cruz na central, tudo encimado por um motivo entrelaçado; o meridional, na parte superior, vestígios de ramos de videira, enquanto em baixo se repete o motivo das cinco pequenas arcadas, mas na central há uma figura de lobo (ou cão? ou raposa?). Uma cornija decorada com motivos fitomórficos, antropomórficos e zoomórficos percorre o muro por cima do arco divisório com a nave lateral meridional (e apenas no comprimento deste tramo, ao passo que os outros tramos têm uma cornija lisa simples). O aparelho interior não revela particular cuidado no assentamento, como se verifica pelo contrário no exterior, embora as pedras sejam também aqui bem esquadradas. A parede norte mostra notáveis sinais de cedência para o exterior (uma das colunas encostadas a esta parede está mesmo partida). Isto explica talvez o motivo que levou à construção dos quatro contrafortes exteriores.
Bruno Balestrini (fotografia), «Abadia de Sant’Urbano di Domo», Românico menor em Itália, Apiro, Itália. Arquivo fotográfico Bruno Balestrini, https://brunobalestrini.org/cita/romanico-minore-00031/. Consultado em [data de consulta].