Kariye-Camii — mosaicos bizantinos de Istambul
O nome Kariye-Camii foi dado pelos Turcos à igreja, transformada em mesquita depois da tomada de Constantinopla.
É considerada, depois de Santa Sofia, a igreja bizantina mais importante de Istambul, não tanto do ponto de vista arquitetónico, mas antes graças à decoração interior, que apresenta uma série de mosaicos e frescos do século XIV entre os mais belos do mundo. A composição arquitetónica da igreja do Salvador de Chora, nome original da Kariye-Camii, apresenta-se como um conjunto desordenado de elementos diversos, embora esta irregularidade não seja de todo visível do exterior.
A igreja, não anterior ao século XI, foi restaurada entre 1316 e 1321 por Teodoro Metoquita, erudito estadista, que ao mosteiro original mandou acrescentar os dois nártexes e o parekklesion funerário, a sul da igreja. Como as partes novas tinham de se adaptar às existentes e a determinadas exigências funcionais, deram origem a diversas irregularidades estilísticas. É seguramente por este motivo que a arquitetura se revela inferior aos revestimentos de mármore e aos famosos frescos e mosaicos interiores, aos quais, aliás, Metoquita dedicou as suas maiores atenções.
O que verdadeiramente deixa os visitantes maravilhados é a impressão de se encontrarem não diante de decorações parietais, mas sim de joias. A impressão que se sente deve-se às cores esplendorosas, acentuadas por uma iluminação cuidadosamente estudada, ao uso frequente do ouro, a uma execução minuciosa e ao modo como todas as imagens, executadas, ainda por cima, em escala bastante reduzida, se adaptam perfeitamente às arquiteturas. Pode afirmar-se com certeza que a preciosidade de toda a decoração não tem paralelo de relevo em nenhuma outra igreja bizantina da época.
A maior parte dos mosaicos e dos frescos de Kariye-Camii encontra-se nas abóbadas, enquanto as paredes estão quase totalmente revestidas de mármores policromos.
Os poucos painéis que têm lugar nas paredes inferiores encontram-se, de qualquer modo, sempre dentro de molduras salientes, pintadas ou em mármore, de modo a formar um nicho, uma luneta ou uma arcada. O artista utiliza a cor numa variedade de tons bastante semelhantes, contrastados depois pelas cores fundamentais. O efeito desarmónico que poderia resultar deste contraste é atenuado pelo fundo, para o qual é usado o ouro. Além disso, a aplicação irregular do fundo dá origem ao característico efeito cintilante. A enriquecer ainda mais o conjunto há os elementos ornamentais, molduras e medalhões, que enriquecem as imagens. Já se afirmou que os mosaicos desta igreja representam a síntese do Renascimento dos Paleólogos, cujas características mais relevantes se encontram na tendência para representar com vivacidade a Encarnação de Cristo e a sua vida terrena e para dotar as personagens sagradas de significados emotivos, a ponto de lhes fazer perder a frontalidade e a imobilidade absoluta e de as levar a agir e a mover-se. Esta última novidade leva a dotar de um certo volume as figuras, as quais necessitam de um espaço em que se possam inserir. Eis por que razão no interior da Kariye-Camii se verifica uma certa ligação entre paisagens e arquiteturas, raramente vista até então. Para dar exemplos concretos desta constatação citamos: o Regresso a Nazaré, onde a cidade está rodeada de esplêndidas paisagens de colinas e de belíssimos jardins arborizados, e a Anunciação a Ana, onde, no jardim em que decorre a cena, surge um vasto complexo arquitetónico, cuidadosamente estudado nas proporções.
É indiscutível a derivação helenística destes exemplos e de muitos outros, entre os quais pomos em destaque as Bodas de Caná. Aqui decorre um episódio particular em que um homem degola um vitelo. Ambos parecem vigorosos, representados com uma atenção minuciosa ao aspeto anatómico para evidenciar a musculatura, e dão a ideia de se encontrarem em perfeita simbiose, a ponto de parecerem um só. Afirmou-se muitas vezes que os mosaicos da Kariye-Camii são desprovidos de inovações realistas, facto aliás frequente na arte bizantina, mas isto não é de todo verdade. Com efeito, no interior das representações sobressaem alguns rostos e uma característica deformação do nariz, totalmente realistas e nada comuns até então nas representações bizantinas. Além destas peculiaridades, há que recordar também a importância do uso do raio luminoso, essencial para tornar realistas as representações.
Um exemplo concreto para explicar o seu efeito pode ser o Milagre da água transformada em vinho, onde as bilhas em primeiro plano, atingidas por este raio, adquirem uma tridimensionalidade própria.
Além dos elementos examinados, contudo, verifica-se uma presença notável de personagens de traços clássicos, segundo as mais comuns tradições bizantinas. É necessário também salientar como as personagens, apesar de serem representadas com uma musculatura bem delineada, parecem frágeis, com as cabeças decididamente pequenas e as pernas finas, e como o todo é representado de modo tão preciso e minucioso que adquire um aspeto precioso e requintado que traz à memória, em muitos aspetos, a pintura gótica. Entre os elementos de maior relevo há que pôr uma ênfase particular no grande conhecimento da anatomia por parte do artista, que substitui o típico contorno das partes anatómicas do nu bizantino pelo uso do claro-escuro muito esbatido, e numa assombrosa consciência da perspetiva.
As representações da narrativa evangélica adquirem, nos mosaicos da Kariye-Camii, um aspeto de conto de fadas que supera com a poesia o comum caráter estático-repetitivo, típico das obras bizantinas. Os mosaicos mais admirados da igreja são os grandes ciclos que têm lugar nas abóbadas, mas, para compreender a fundo a atmosfera que se percebe no interior da Kariye-Camii, é importante mencionar os mosaicos isolados e dispostos nas paredes da nave e do vestíbulo, em que aparecem frequentemente Cristo, a Virgem e os apóstolos. Recordemos os dois medalhões, situados nas duas cúpulas do nártex, que representam respetivamente Cristo e a Virgem com o Menino, em torno dos quais, em duas filas sobrepostas, estão representados os antepassados bíblicos de Jesus, de um lado, e os profetas e outras personagens do Antigo Testamento, do outro. Esta última observação é bastante importante, uma vez que a arte bizantina nunca representa os factos bíblicos, a não ser no período dos Paleólogos. É possível, neste ponto, fazer uma distinção topográfica que coloca, no vestíbulo que precede a nave, os ciclos bíblicos e, na nave, os ciclos relativos ao Novo Testamento. A particularidade das narrativas nesta obra reside no facto de as histórias se limitarem à infância de Maria, depois à de Jesus, e, quanto ao resto da história evangélica, serem tratados apenas os milagres de Jesus. As cenas relativas à infância de Maria e de Jesus encontram-se nas abóbadas e nos tímpanos do nártex e numa parte da abóbada do exonártex. Os mosaicos relativos aos milagres de Jesus, por sua vez, têm lugar num vestíbulo e representam um ciclo que permanece independente da série das grandes festas evangélicas, que compreende todas as outras representações e cujo tema essencial era a espera do Filho de Deus e a sua encarnação. Nos arcos entre as abóbadas dos dois nártexes está representada uma longa série de santos e mártires, enquanto num tímpano há um mosaico que representa a Virgem segurando ao peito o Menino Jesus. A esta imagem está associada uma inscrição em que se lê: «terra (Chora) de quem não tem terra», que evoca o nome grego do mosteiro.
Na capela sul encontram-se os frescos relativos à Descida ao Limbo e duas cenas de ressurreição operadas por Cristo. A abóbada diante da abside é inteiramente dedicada ao Juízo Final, enquanto, na segunda abóbada, através de grandes cenas históricas, são narrados alguns acontecimentos bíblicos, considerados como emblemas da Mãe do Salvador. Outra esplêndida imagem encontra-se na cúpula da nave de entrada: uma Virgem com o Menino rodeados por um círculo de anjos.
As fotografias