Rapariga ao entardecer
Bem depressa, porém, os interesses martinianos superavam a elegância um tanto decadentista, excessivamente esteticizante, das pesquisas dos anos de Ca' Pesaro e da Secessão romana (1913-15); o escultor concentra-se na superação da efervescência pitoresca de uma modelação de tipo vagamente impressionista, tal como então imperava, em favor da recuperação de uma escultura como organismo autonomamente construído, reduzido à essência, sem ouropéis descritivos. Numa estrutura ideal claramente inspirada no Laurana e, ao mesmo tempo, nos ídolos cicládicos, Martini instaura um complexo diálogo com a história, ou melhor, com o mito, e com os resultados fenoménicos (não são poucas as analogias com a poética de Modigliani); na aparente frieza e pureza geométrica dos volumes e na polida nitidez dos planos propõe a expressão de um lirismo fechado e sensitivo, recolhido e sombrio.
Bruno Balestrini (fotografia), «Rapariga ao entardecer», obra de Martini Arturo, Escultura moderna, Veneza, Galleria d'Arte Moderna em Ca' Pesaro. Arquivo fotográfico Bruno Balestrini, https://brunobalestrini.org/cita/sch00220/. Consultado em [data de consulta].