Pieve de Santa Stefania
CAMPANÁRIO O campanário (ver foto campanário) , separado da igreja cerca de um metro, é uma alta e maciça torre quadrada, na qual se evidenciam pelo menos duas fases construtivas diferentes, identificáveis na secção do alçado, a partir de uma dezena de metros ou pouco mais acima do terreno no lado meridional e a uma altura de um par de metros acima no lado norte, onde a alvenaria, seguindo um traçado transversal, apresenta quase uma linha de rutura pela irregularidade das ligações das cantarias das partes superiores com as das secções baixas; estas são realizadas com pedras por vezes de grandes dimensões, talvez provenientes do vizinho povoado rústico residencial de época romana [2] (ver foto base do campanário) . Esta secção da torre é ligeiramente mais larga do que a parte superior, o que indica uma construção anterior, talvez não propriamente destinada a fins religiosos, dada a total ausência de aberturas (poder-se-iam supor restos do “ castrum diruto ”, que a documentação medieval indica situado junto da pieve, readaptados em época românica como campanário, com a construção das partes altas da torre). As partes mais altas distinguem-se no sistema construtivo pelo uso de pedras mais pequenas, esquadriadas e montadas com uma técnica comparável à usada nos muros perimetrais e na fachada da igreja. Não há aberturas, salvo quatro janelas de arco de volta perfeita em tijolo que se abrem na câmara sineira, uma estreita seteira inserida no lado norte à altura do primeiro andar, e a entrada da torre, situada do lado leste e sobrelevada à altura do primeiro andar (hoje acessível por uma escada de ferro). Junto do lado sul da igreja, pousadas no chão e abandonadas, encontram-se duas bases quadradas de coluna em pedra branca e um fuste de coluna em mármore rosa de Verona. Desconhece-se o local de proveniência. INTERIOR A partir do portal de entrada é preciso descer alguns degraus para chegar ao nível do pavimento da igreja, refeito e restaurado em épocas recentes. O interior é de nave única, dividida em quatro tramos por três amplos arcos transversais apoiados em maciços pilares, salientes cerca de um metro em relação aos muros laterais, e rematada a leste pelo hemiciclo absidal ( ver foto interior) . Sinais evidentes da intervenção de época renascentista são precisamente os arcos transversais quebrados e o pesado reboco que cobre os troços de parede não decorados com frescos ou cobertos pelos altares. O telhado é realizado com vigas de madeira à vista e ladrilhos pintados formando o teto. Vários troços de pintura apresentam-se bem conservados, tanto os da capela lateral esquerda como os do arco e das paredes da zona da capela-mor. Vestígios de fresco são visíveis também ao longo das paredes laterais e num dos pilares de apoio dos arcos transversais quebrados, indícios de que esta decoração deveria estender-se muito além do que ainda é visível. Que os habitantes de Nuvolento apreciavam a decoração pictórica (o que também apoia a hipótese de ciclos pictóricos bem mais extensos) poderia verificar-se na particularidade, aliás única na região do Garda, de terem mandado pintar, além dos muros da igreja, também os ladrilhos dos telhados (“ Tijoleiras de barro cozido inseridas entre as vigas a cobrir os quatro tramos ”) com motivos que variam de temas de carácter sacro a outros profanos, certamente de época tardia, como se pode ainda ler em algumas inscrições inseridas nos motivos decorativos: “ Sucedem-se inscrições devocionais, datas, motivos geométricos em losangos, representações relativas à Paixão de Cristo, elementos impressos com carimbo… ”. A parte pictórica mais notável das coberturas é a do segundo tramo a partir da entrada, onde, a motivos religiosos, se juntam símbolos profanos e ligados à cultura popular (Cristo, os anjos, os sinais do martírio, o sol, a lua, a morte, a representação da Trindade tricéfala e outros), (ver ladrilhos do teto: ver foto Trindade tricéfala ). Frescos da capela da esquerda (inserida no flanco norte). Esta capela ou altar deverá ser dedicada à Anunciada, e tem a forma de uma pequena abside semicircular com a semicúpula pintada a fresco em forma de concha. Na parede direita está pintada a data 1521. As partes baixas apresentam representações de santos e de mártires: a lapidação de Santo Estêvão à esquerda ( ver foto fresco Santo Estêvão) e São Lourenço na grelha à direita: este último, em bom estado de conservação, apresenta uma execução estilística requintada e segura, competente e artisticamente conforme às melhores tradições pictóricas das oficinas lombardas das primeiras décadas do século XVI) ( ver foto fresco São Lourenço) . A coroa da luneta está pintada com os bustos dos Profetas. Alguns estudiosos aproximam os resultados pictóricos desta Anunciação com Santos e Mártires da escola de Floriano Ferramola (?) e das pinturas que se conservam na igreja do Carmine, em Brescia, e na igreja de Sant’Eufemia em Nigoline. Frescos mais antigos encontram-se, pelo contrário, na parede sul, onde estão representados uma Maria Madalena penitente e outro santo sem cabeça [3] , cronologicamente situáveis no início da segunda metade do século XIV, com exceção da Virgem em majestade com o Menino, São Bartolomeu e doador pintada ao lado do hemiciclo absidal, na frente norte (ver foto fresco pormenor) . Esta representação distingue-se dos outros frescos conservados na pieve pelo particular emprego cromático de cores vivas e pelos traços finamente desenhados e proporcionados. Outras figuras de santos aparecem na decoração pictórica da zona da capela-mor: São Roque, Santo Antão Abade, São Bernardino de Siena e outra Virgem com o Menino. Na frente do arco está pintada uma Anunciação. Colocadas no pavimento, na base da parede da contrafachada, uma de cada lado, encontram-se duas lápides tumulares retangulares: a do norte é datada do século XVIII, enquanto a do sul, mais antiga, apresenta a particularidade de o selo redondo ter sido decorado com a representação de um compasso. ESTRUTURAS ANEXAS O edifício, agora destinado a uso agrícola, situado a norte da abside, apresenta troços de muro de provável época medieval, identificáveis nos lados oeste e sul, onde as partes baixas são realizadas em grandes pedras esquadriadas de diferente material e medida; do lado meridional entreveem-se os restos de uma janela em seteira, agora emparedada, e pouco acima resta uma janela com cantarias monolíticas esquadriadas como ombreiras: restos de um óculo (moldura em pedras claras, agora emparedado) são visíveis pouco abaixo do vértice das águas do telhado. Nesta secção superior, como materiais aplicados, predominam os seixos e as pedras toscas ( ver foto zona absidal) ; a secção murária ocidental deste edifício repete em certos troços, pela tipologia construtiva, as disposições do lado sul, embora sejam muito evidentes as modificações e adaptações introduzidas em várias épocas, como demonstram os restos de duas aberturas: a mais baixa era uma porta de arco de volta perfeita em tijolo, enquanto da abertura inserida ao nível do primeiro andar restam emparedadas as ombreiras monolíticas. [2] A título informativo, referimos a notícia de que pouco longe da pieve foram descobertos os restos de uma villa rústica romana, local frequentado, reutilizando parte das preexistências romanas, também na Alta Idade Média. [3] Ainda segundo o autor do sítio da internet citado na nota 1, trata-se de “São Leonardo de Limoges, reconhecível pelo atributo iconográfico que segura na mão esquerda: um ‘cepo’ que servia para manter firmemente presos os pés dos prisioneiros, de quem é considerado o protetor”.
Bruno Balestrini (fotografia), «Pieve de Santa Stefania», Românico menor em Itália, Nuvolento, Itália. Arquivo fotográfico Bruno Balestrini, https://brunobalestrini.org/cita/romanico-minore-00013/. Consultado em [data de consulta].