A Pisana
Na intensíssima atividade martiniana, rica de inventiva e de surpresas, passaram pelo crivo todos os mitos e as ilusões da civilização moderna. A síntese entre arcaísmo e classicismo, o aparente ecletismo cultural, que todavia na obra concreta supera qualquer ressaibo de arqueologia e de etnografia, concorreram indubitavelmente para a definição do chamado primitivismo martiniano; insensivelmente, porém, a exigência de um purismo estilístico, de uma clara estruturação plástica, de perfis fechados e elementares, enriquecia-se de humores sensuais e trepidantes, de ritmos subtis e requintados que parecem ecoar, numa sintaxe diferente, a tépida luminosidade de certos mármores canovianos. Mas um quê de acerbo, de contrastado, exclui a plástica martiniana da olímpica segurança (que está, afinal, sempre à beira da frieza) do mestre neoclássico e enriquece-a de ressonâncias patéticas e sentimentais, de perturbações e incertezas que tornam o escultor plenamente partícipe do «estado de crise perene» da civilização contemporânea.
Bruno Balestrini (fotografia), «A Pisana», obra de Martini Arturo, Escultura moderna, Acquiterme, Coleção Ottolenghi. Arquivo fotográfico Bruno Balestrini, https://brunobalestrini.org/cita/sch00223/. Consultado em [data de consulta].